Me peguei recentemente pensando sobre essa frase atribuída a Bernardo de Chartres e popularizada quando dita por Isaac Newton e cheguei a conclusão de que ela é sim verdadeira, mas nem um pouco pontual, se trata sim de um "meia verdade".
Em minha concepção, o tempo é o maior inimigo do ser humano e a menos que seja superado e vencido, não há futuro para nós como raça, muito menos como indivíduos. Sem dúvida considero o tempo e a mortalidade humana como meu maior inimigo pessoal e o maior obstáculo evolutivo humano e isso tem tudo a ver com a relatividade dessa frase, que a torna perigosamente falsa.
Não se trata de questionar fatos práticos, pois é evidente que uma criança de 10 anos de hoje sabe mais do que um sábio adulto de séculos atrás e isso se deve sim ao fato de termos tanto conhecimento acumulado por gerações e isso facilita por sua vez a absorção de conhecimento, o que obviamente aumenta o volume de informações absorvidas e aprendidas, mas é mentira crer que esse conhecimento agilizado e avolumado seja completo, não o é e eis aí o problema.
Em primeiro lugar, intelectualmente nossa vida não começa antes do fim da infância e por mais que tenhamos conhecimentos acumulados, nada pula o período necessário para reaprender tudo do mais básico. Nascemos "zerados", temos que aprender a andar, falar, reconhecer os arredores, adquirir personalidade ou ao menos seus primeiros traços, desenvolver nossas inteligências variadas, aprender a ler, escrever, descobrir interesses. Já está mais do que provado que tentar acelerar ou dar pouca atenção à essa fase formativa é mais do que um erro, é quase um assassinato e sem dúvida, uma violência. No entanto, evolutivamente esse tempo é irremediavelmente perdido e mesmo que tenhamos mais de uma vida, a começamos igualmente "zerados" e temos que reaprender tudo de novo, de novo e de novo, invariavelmente, o que por si só já é um impeditivo natural para qualquer evolução significativa.
Mas voltemos ao foco do artigo.
Imaginemos que o interesse de um indivíduo "x" seja pela arte, mais especificamente pela pintura e que busque sua inspiração, seu "gigante" em DaVinci. Ainda que X estude toda a vida e obra de DaVinci, minuciosamente, pelos olhos de vários outros estudiosos (outros "gigantes") e dedique toda sua vida a ver o mundo e a arte de DaVinci como o próprio o faria, ele nunca seria DaVinci, jamais passaria pelas experiências individuais dele, de seu íntimo, daquilo que só ele mesmo ou sequer ele próprio sabia haver dentro de si, de sua mente.
O que isso nos traz, no que resulta? X seria no máximo um arremedo dos gigantes que emprestaram seus ombros, saberia no máximo uma síntese resumida de uma parcela do que todos eles sabia e por mais talentoso que se torne, ainda que "supere" DaVinci, será algo diferente, algo novo e nunca uma continuidade, uma efetiva evolução do que o próprio DaVinci foi, pois isso apenas o próprio seria, apenas o próprio faria.
Talvez vc me responda dizendo que ele não devesse querer ser como DaVinci e desde o começo "bebesse de várias fontes" já visando ser algo novo, pois tendo acesso a muito mais e mais variada informações e sínteses de experiências, ele poderia ser por si, maior do que DaVinci, um "gigante" ainda maior. Caso o fizesse eu devolveria então a pergunta:
Da Vinci morreu a 501 anos, onde está o gigante maior que ele?

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